A seita secreta
A poesia de hoje está nos blogs, uma forma fácil e sem custos para publicá-la. Há uma rede de blogs poéticos na net: você entra em um e, a partir dos links que ele te oferece vai conhecendo outros e assim sucessivamente. O blog (e o site) foi a solução para se atingir o público leitor da poesia, pequeno e disperso.
O blog é uma forma de publicar que também vem de encontro com o modo de interação entre literatura e sociedade hoje em dia. A literatura é muito mais uma seita secreta para iniciados que uma igreja católica para todos. É secreta não porque suas bruxarias sejam feitas em segredo, mas porque, para entendê-las, para se conectar com elas, é preciso uma disposição de espírito (pra usar um termo antigo) pra coisa. Esta disposição exige, além de simpatia, uma certa aplicação num aprendizado ao mesmo tempo técnico e sensível, de longo prazo (a vida toda). Poucos sentem atração/desejo por este duro aprendizado escrito.
Talvez a literatura sempre tenha sido assim: de e para poucos. Mas ela tinha uma ambição iluminista de ser para todos e as pessoas alfabetizadas sentiam a pressão de dever ler a boa literatura. Hoje as pessoas não mais se sentem coagidas a lê-la. Apenas artistas e especialistas em texto a lêem. As pessoas em geral buscam satisfazer seus desejos de poesia na canção pop e os de narrativa na TV e no cinema.
Só os escritores (poetas, narradores e críticos) parecem não perceber o caráter incontornável da literatura atual: o de seita secreta, restrita a iniciados. Quando percebem (porque é óbvio demais) não aceitam o fato e colocam a culpa no subdesenvolvimento, nas elites, na nossa falta de cultura - como se no Primeiro Mundo a situação fosse diferente. Os escritores ainda têm o sonho iluminista de uma igreja católica literária - católico aqui, no sentido de universal. Colocam-se como os apóstolos da literatura.
Para os escritores, aceitar que o texto literário seja para poucos seria incorrer num elitismo inaceitável. Seria concentrar injustamente uma riqueza que deveria ser distribuída a todos. Eles acreditam que a literatura é um bem necessário às pessoas em geral, que as enriquece e as salva. Talvez ela realmente salve os iniciados que, sem dúvida, precisam dela, assim como o feiticeiro e seus aprendizes têm na bruxaria uma prática vital para eles. Como o cientista não pode viver sem a ciência e nem o artesão sem o artesanato. Como algmas pessoas não concebem sua vida sem o rock, outras sem a música sertaneja, outras sem a MPB... O fato de os iniciados terem sido salvos pela literatura não quer dizer que todos o sejam.
A literatura não é uma riqueza absoluta e os que detêm este conhecimento não formam um grupo de privilegiados. O iniciado em literatura, seja leitor ou escritor, não é melhor ou pior que os outros homens.
Escrito por Wilton às 09h40
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