É preciso saber gritar
A canção não é música (no sentido estrito da coisa) nem sua letra é um poema. Ela é uma poesia, tão boa quanto a escrita, mas só o é enquanto cantada: se o poema é a coisa escrita que espera a leitura, a canção é a coisa gravada que espera a audição. Luiz Tatit diz, com razão, que, na canção, a entonação do canto deriva da fala e não da música: por isto a coisa não é ópera, na qual a voz é um instrumento a mais.
Às vezes se grita na canção, mas não de qualquer jeito, pois é preciso imbricar os gritos com a instrumentação e os sentidos da letra, como em "Metrolpole":
Metrópole Letra: Renato Russo Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/ Marcelo Bonfá
"É sangue mesmo, não é mertiolate." E todos querem ver E comentar a novidade.
"É tão emocionante um acidente de verdade." Estão todos satisfeitos Com o sucesso do desastre:
"-Vai passar na televisão."
"Por gentileza, aguarde um momento. Sem carteirinha, não tem atendimento Carteira de trabalho assinada, sim senhor. Olha o tumulto: façam fila por favor."
"-Todos com a documentação"
"-Quem não tem senha, não tem lugar marcado. Eu sinto muito, mas já passa do horário. Entendo seu problema mas não posso resolver: É contra o regulamento, esta bem aqui, pode ver."
Ordens são ordens.
"-Em todo caso já temos sua ficha. Só falta o recibo comprovando residência. P'ra limpar todo esse sangue, chamei a faxineira E agora eu já vou indo senão eu perco a novela
E eu não quero ficar na mão."
Como poema, esta letra seria de uma igenuidade rasteira, mas cantada, ou melhor, gritada como Renato Russo faz, ela se torna uma poesia dura como (e contra) a cidade grande.
Ao gritar violentamente a letra, é como se a voz do cantor explorasse e explicitasse a violência da linguagem cotidiana e bem educada das metrópoles. Atente-se ao penúltimo verso, no qual a palavra novela é gritada de forma grutural, associando à frase cotidiana uma violência insuspeitada. Em contraponto com os gritos há quatro orações isoladas, cantadas repetidamente em tom suave e monocórdio, uma espécie de racionalidade educada, mas fria e insensível e que se torna tão ou mais violenta que as palavras gritadas. Desta racionalidade monocórdia, talvez o verso mais representativo seja "ordens são ordens", expressão de uma sociedade na qual a regra é lavar as mãos.
Trata-se de um novo mundo para o brasileiro da década de 80, egresso de uma cutura interiorana e rural. Um mundo individualista, calculado e impessoal, povoado de gerentes e funcionários e permeado por regulamentos, rotinas e entretenimento. Um modo de vida urbano que se quer desenvolvido.
Esta canção é uma poesia-porrada, que emerge da vida urbana e interage, tensa e brutamente, com ela. Uma poesia tecida de gritos violentos e agônicos, mas bem gritada.
Escrito por Wilton às 10h09
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