minutos de feitiçaria


As fábulas da forma

Pierre Bordieu analisa Flaubert em "As regras da arte". Roberto Schwartz analisa Machado em "Ao vencedor as batatas" e "Um mestre na periferia do capitalismo". Antônio Candido analisa "Memórias de um sargento de milí­cias" de Manuel Antônio de Almeida no ensaio "Dialética da malandragem".

Nestas três abordagens de crí­ticos-sociólogos ou, a critério do leitor, sociólogos-crí­ticos, há uma premissa comum que perpassa o trabalho analítico: a de que a forma estética - consciente e obsessivamente rigorosa em Flaubert e Machado e inicialmente frouxa, mas progressivamente bem armada no romance de Almeida - intui uma (ou mais) forma que ordena a sociedade na qual vivem os escritores. Forma social que estes, como qualquer homem de seu tempo, trazem inconscientemente (superego?) consigo. Em outras palavras, a forma estética diz (objetiva) não dizendo (escamoteando a objetivação) a forma social oculta pelos discursos convencionais (ideologia).

Os três crí­ticos frisam a importância, na obra destes autores, da inventividade (desvio) e precisão (mestria) da forma estética para se obter um efeito de real 'ní­tido' e 'limpo'. Nitidez e limpidez que as convenções literá¡rias cristalizadas da época destes escritores não conseguiam atingir, pois, tal como as idéias e discursos correntes, os hábitos da literatura turvavam a compreensão de como (e este como é uma 'forma de') a sociedade funcionava verdadeiramente por trás das aparências da ideologia. Paradoxalmente, pelo rigor formal e até pelo culto da forma, acompanhado de uma postura indiferente e desengajada em relação às injustiças sociais e às paixões humanas é que estes autores conseguem atingir mais agudamente o cerne da sociedade e dos homens que nela se relacionam.

Estas obras crí­ticas são tão boas quanto a dos romancistas. Arrisco dizer que estão no mesmo ní­vel de inventividade. Se é preciso ser irresponsável pra se dizer isto, que sejamos então irresponsáveis e, aprofundando o disparate, digamos que as três análises crí­ticas em questão são tão boas fábulas quanto os romances que constituem seu 'objeto'. São fábulas crí­ticas impecáveis e cada uma apresenta um rigor e uma precisão de análise, uma criatividade em estabelecer relações, de modo algum mecânicas ou previsí­veis, entre autor, obra e sociedade raros de se encontrar. Como bons romancistas, estes crí­ticos são capazes de nos surpreender, frustrando nossas expectativas convencionais a cada passo de seus escritos, apresentando-nos mundos novos e assustadores, obrigando-nos a romper com nossos hábitos mentais para que possamos vivenciar suas obras em sua plenitude. O que Bordieu diz a respeito de Flaubert, aplica-se a ele mesmo, Candido e Schwartz: o bom escritor tem a capacidade de construir uma obra que não é avaliável pelos campos literários (de conhecimento) estabelecidos, pois a partir destes campos antigos ela instaura um novo campo, mais fecundo e refratário a eles. Em outras palavras, as boas obras impõem outra estética e outra ética aos campos sociais e literários já existentes. Tudo isto pode ser dito também a respeito de uma boa obra crítica a qual, não raro, altera a percepção do campo literário atual e da obra que analisa, quase que a reconstruindo.

(Um dado curioso que, para os ufanistas da brasilidade, talvez seja fundamental: Candido e Schwartz chegaram à  idéia da forma estética que revela uma forma social antes de Bordieau - ou pelo menos publicaram primeiro. 1 x 0 para a colônia.)

Estas fábulas da forma estética e da forma social não deixam de evocar o princí­pio do mimetismo, da imitação nos moldes aristotélicos. Por outros termos trata-se de uma relação representativa entre estruturas: a estrutura estética da obra representando (revelando) a estrutura social do mundo. São fábulas crí­ticas da representação, nas quais o funcionamento formal do romance representa - nunca explícita ou diretamente - o funcionamento social da vida. E a representação traz sempre a questão da verdade representada, do fundo sobre o qual uma forma se move para iluminá-lo. Eis, talvez, o limite destas fábulas da forma: tratam-se de fabulações realistas que pressupõem um limite de verdade (o da realidade representada) para o jogo da escrita romanesca e da sua própria escrita crí­tica. São, em última análise, buscas por estruturas que revelariam uma ordenação (forma), verdadeira e verificável, do mundo dos homens.



Escrito por Wilton às 16h39
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